
Quatro futuros para a Inteligência Artificial: qual deles estamos construindo hoje?
Quando falamos sobre Inteligência Artificial, é comum que o debate se concentre nas capacidades dos modelos mais avançados ou nas próximas grandes inovações tecnológicas. Mas talvez essa seja a pergunta errada.
A questão que realmente importa é: que tipo de sociedade queremos construir com a IA?
Exercícios prospectivos que projetam diferentes cenários para 2035 mostram que não existe um único futuro possível para a Inteligência Artificial. Dependendo das decisões tomadas por governos, empresas e organizações internacionais, a IA pode ampliar oportunidades ou aprofundar desigualdades.
Os quatro cenários apresentados neste artigo são baseados no estudo prospectivo desenvolvido pela OCDE para a reunião do Global Strategy Group 2024, que explora possíveis futuros para a governança global da Inteligência Artificial em 2035. Construídos a partir de evidências emergentes e megatendências, esses cenários revelam que os maiores riscos e oportunidades da IA não são tecnológicos. Eles são institucionais, sociais e políticos.
Um futuro inclusivo é uma escolha
No cenário mais desejável, a IA é desenvolvida para ampliar capacidades humanas, reduzir desigualdades e fortalecer a participação social. Governança internacional, transparência, regulação equilibrada e colaboração entre países permitem que seus benefícios sejam compartilhados de forma ampla.
Esse futuro pressupõe que a tecnologia esteja subordinada a objetivos públicos claros: melhorar serviços, apoiar decisões, ampliar o acesso ao conhecimento e aumentar a qualidade de vida das pessoas.
A IA torna-se uma ferramenta para gerar valor público.
Regular também significa decidir quem terá acesso
Um segundo cenário mostra que a regulação, por si só, não resolve todos os problemas. Quando construída sem uma perspectiva inclusiva, ela pode concentrar conhecimento, infraestrutura e poder econômico nas mãos de poucos países e grandes empresas.
Nesse caso, a tecnologia continua segura e eficiente, mas deixa de ser democrática.
A discussão sobre governança da IA precisa considerar não apenas riscos tecnológicos, mas também seus impactos sobre competitividade, desenvolvimento econômico e soberania digital.
Inovar sem governança tem custos
Há também o risco oposto: uma IA amplamente disponível, barata e pouco regulada.
A popularização da tecnologia pode acelerar ganhos de produtividade, mas também ampliar problemas relacionados à desinformação, privacidade, direitos autorais, precarização do trabalho e confiabilidade dos sistemas.
O desafio não está em limitar a inovação, mas em criar mecanismos que permitam seu desenvolvimento responsável.
O maior risco pode ser a ausência de estratégia
O cenário mais extremo evidencia que a corrida pela liderança tecnológica pode produzir efeitos indesejados quando não existem acordos internacionais e políticas públicas consistentes.
Automação em larga escala, concentração de poder, fragmentação social e uso indevido da tecnologia deixam de ser discussões teóricas e passam a ser desafios concretos.
A pergunta deixa de ser “o que a IA será capaz de fazer?” e passa a ser “como iremos governar aquilo que ela será capaz de fazer?”.
O papel das políticas públicas
Os cenários apresentados neste artigo foram inspirados no vídeo produzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O material explora quatro cenários hipotéticos para a Inteligência Artificial em 2035, construídos a partir de evidências emergentes, megatendências e diferentes premissas sobre como o futuro da governança global da IA pode se desenvolver.
Nenhum desses futuros é inevitável. Todos são consequência das escolhas feitas no presente. Por isso, discutir Inteligência Artificial exige ir além dos avanços tecnológicos. É preciso discutir capacidades institucionais, governança, infraestrutura digital, coordenação entre atores públicos e privados e estratégias de longo prazo.
A transformação digital não é apenas um projeto tecnológico. É um projeto de sociedade. Se a Inteligência Artificial será inclusiva, concentradora, descontrolada ou socialmente disruptiva dependerá menos dos algoritmos e mais da capacidade que teremos de construir instituições preparadas para orientar o seu desenvolvimento.
Na Linked Data, acreditamos que o desenvolvimento da Inteligência Artificial precisa ser acompanhado pelo fortalecimento das capacidades do Estado e das instituições que irão utilizá-la, regulá-la e orientar sua aplicação. Não existe IA capaz de gerar valor público sem governos preparados para tomar decisões baseadas em evidências, construir estratégias de longo prazo e desenvolver mecanismos de governança adequados.
Mais do que acompanhar as tendências tecnológicas, é necessário compreender como elas se conectam ao desenvolvimento territorial, à inclusão digital e à formulação de políticas públicas. A qualidade das decisões tomadas hoje determinará se a IA será um instrumento de prosperidade compartilhada ou de ampliação das desigualdades.
É justamente nesse ponto que a governança se torna protagonista. O futuro da Inteligência Artificial será menos definido pelos avanços dos algoritmos e mais pela nossa capacidade coletiva de construir instituições capazes de utilizá-los de forma responsável, inclusiva e orientada à geração de valor público.
O futuro da IA já está sendo desenhado. A pergunta que permanece é: estamos construindo as capacidades necessárias para governá-lo?
Referência
Este artigo foi elaborado a partir do vídeo “AI Futures 2035”, produzido pela OCDE para a reunião do Global Strategy Group 2024. Assista ao vídeo completo: https://www.youtube.com/watch?v=8H1Rz8rL0kM