
Compras públicas de inovação: o Estado como indutor de desenvolvimento
Durante muito tempo, as compras públicas foram tratadas apenas como processos administrativos voltados à aquisição de bens e serviços pelo menor custo imediato. Em um cenário marcado pela transformação digital, pela competitividade global e pela centralidade dos dados, essa lógica já não responde aos desafios contemporâneos.
Cada contratação pública pode (e deve) atuar também como instrumento estratégico de indução do desenvolvimento econômico, social e tecnológico. Quando o Estado compra, ele não apenas atende demandas internas: ele fortalece empresas nacionais, estimula novos mercados, gera empregos qualificados e amplia capacidades produtivas e tecnológicas no país.
Mais do que adquirir soluções prontas, trata-se de utilizar o poder de compra governamental para criar condições favoráveis à inovação de longo prazo.
Compras públicas de inovação como indutor de desenvolvimento econômico e social
Os números do próprio orçamento público mostram que ciência e tecnologia são áreas centrais para o desenvolvimento nacional. Em 2025, o orçamento atualizado da área de Ciência e Tecnologia no Brasil alcançou R$ 35,45 bilhões), com forte concentração de recursos em áreas como desenvolvimento tecnológico, engenharia, pesquisa científica e difusão do conhecimento tecnológico.
Parte significativa desses recursos está direcionada a instrumentos como concessão de financiamentos, subvenções econômicas e apoio à formação de pesquisadores. Isso demonstra que o investimento público não se limita ao custeio estatal: ele também atua na promoção da inovação, da competitividade e da capacidade produtiva nacional.
Quando orientadas à inovação, as compras públicas fortalecem ecossistemas locais, aproximam universidades, startups, empresas e setor público, além de estimular cadeias produtivas mais sofisticadas e colaborativas.
Os impactos sociais também são relevantes. Soluções inovadoras podem melhorar serviços essenciais como saúde, educação, mobilidade, segurança e assistência social. Tecnologias orientadas por dados, por exemplo, contribuem para decisões mais rápidas, melhor alocação de recursos e políticas públicas mais eficazes. Em outras palavras: comprar inovação não representa apenas gasto público, mas investimento com retorno econômico e social de longo prazo.
O Estado como indutor de inovação
Durante décadas, consolidou-se a percepção de que a inovação nasce exclusivamente do setor privado. No entanto, estudos contemporâneos sobre desenvolvimento tecnológico mostram que grandes transformações econômicas costumam emergir de investimentos públicos estratégicos e da capacidade estatal de coordenar diferentes atores em torno de objetivos comuns.
A economista demonstra que tecnologias fundamentais da economia digital — como internet, GPS, microprocessadores e diversas aplicações de inteligência artificial — tiveram origem em investimentos públicos de longo prazo, especialmente ligados à pesquisa científica, defesa e políticas industriais.
Nesse contexto, o Estado não deve ser compreendido como agente isolado da inovação, mas como articulador estratégico capaz de conectar universidades, empresas, startups, centros de pesquisa e sociedade civil em torno de soluções de alto impacto.
Esse talvez seja um dos principais desafios brasileiros atualmente: fortalecer a governança dos ecossistemas de inovação para que as diferentes hélices deixem de atuar de forma fragmentada e passem a operar de maneira coordenada, colaborativa e sustentável.
Isso envolve desenvolver capacidades nacionais, estimular setores prioritários, ampliar infraestrutura tecnológica e consolidar ambientes institucionais favoráveis à inovação contínua. Quando há coordenação, confiança e objetivos compartilhados, o poder de compra do Estado deixa de ser apenas operacional e passa a funcionar como mecanismo estruturante de desenvolvimento.
Cases de indução tecnológica
Internet: o Estado assumindo riscos antes do mercado
Um dos exemplos mais emblemáticos é o surgimento da internet. Antes de se tornar infraestrutura essencial da economia digital americana, a tecnologia foi financiada por décadas por investimentos públicos de alto risco conduzidos pela DARPA, agência de pesquisa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Naquele momento, não havia garantias de retorno econômico imediato nem interesse significativo do setor privado em financiar uma infraestrutura tão incerta e experimental. Foi o investimento estatal de longo prazo que permitiu a criação das bases tecnológicas posteriormente apropriadas e comercializadas pelo mercado (MAZZUCATO, 2014).
O caso Embraer e a construção de capacidades tecnológicas
No Brasil, a trajetória da Embraer é um dos exemplos mais relevantes de indução tecnológica. Criada em 1969, a empresa conseguiu se consolidar em um setor altamente complexo e competitivo ao combinar investimento em inovação, formação de capacidades técnicas e articulação entre Estado, universidades e setor produtivo.
Ao longo de sua história, a Embraer desenvolveu competências estratégicas em engenharia, pesquisa e desenvolvimento, tornando-se referência mundial na indústria aeronáutica. Esse avanço não aconteceu de forma isolada: ele foi impulsionado por políticas públicas, fortalecimento institucional e mecanismos de transferência de tecnologia que permitiram ao país construir conhecimento especializado em uma área intensiva em tecnologia (ARAÚJO; OLIVEIRA, 2020).
Outro aspecto importante dessa trajetória foi a valorização dos ativos intangíveis, como propriedade intelectual, desenvolvimento de patentes e proteção tecnológica. Isso contribuiu para ampliar a competitividade da empresa em mercados internacionais e consolidar um ciclo contínuo de inovação. O caso mostra que inovação de alto impacto exige mais do que investimento financeiro. É preciso criar ambientes favoráveis à colaboração, desenvolver capacidades locais e estruturar políticas que estimulem o avanço tecnológico de forma sustentável (ARAÚJO; OLIVEIRA, 2020).
O iPhone e a infraestrutura pública da inovação
Outro case americano é o próprio iPhone. Embora frequentemente associado exclusivamente à capacidade inovadora da Apple, os principais componentes tecnológicos do dispositivo nasceram de investimentos públicos anteriores.
Tecnologias como GPS, touchscreen, microprocessadores, assistentes de voz e protocolos de internet tiveram participação decisiva de universidades, laboratórios públicos e programas governamentais financiados pelo Estado norte-americano. Mazzucato (2014) destaca que a inovação privada foi essencial para transformar essas tecnologias em produtos escaláveis e desejados pelo mercado, mas a infraestrutura científica e tecnológica necessária para isso já havia sido construída previamente por meio de investimentos públicos de longo prazo.
Nesse contexto, o Estado não atua como substituto do setor privado, mas como indutor de ecossistemas de inovação capazes de viabilizar tecnologias que inicialmente não apresentavam atratividade comercial imediata.
Google e o financiamento público da pesquisa
O próprio algoritmo que deu origem ao Google recebeu apoio estatal. Conforme aponta Mazzucato (2014), o projeto foi financiado pela National Science Foundation (NSF), agência pública norte-americana voltada ao desenvolvimento científico e tecnológico.
Esse caso evidencia uma dinâmica recorrente nos processos de inovação: o Estado financia pesquisa básica e desenvolvimento em estágios altamente incertos, enquanto o setor privado posteriormente transforma essas descobertas em modelos de negócio escaláveis. Reduzir o papel estatal à simples “correção de falhas de mercado” ignora justamente sua função mais estratégica: criar mercados, direcionar capacidades tecnológicas e abrir caminhos que ainda não haviam sido explorados pelo setor privado.
Semicondutores, inteligência artificial e soberania tecnológica
A disputa global atual por semicondutores e inteligência artificial demonstra que essa lógica permanece extremamente atual. Estados Unidos, China e União Europeia vêm mobilizando bilhões de dólares em políticas industriais para fortalecer cadeias produtivas estratégicas, reduzir dependências externas e ampliar capacidade tecnológica nacional.
Mais uma vez, o objetivo não é substituir o setor privado, mas induzir capacidades tecnológicas consideradas essenciais para competitividade econômica, segurança nacional e soberania digital. Como observa Mazzucato (2014), os grandes avanços tecnológicos tendem a surgir em ecossistemas nos quais o Estado atua como investidor estratégico, coordenador institucional e agente capaz de sustentar investimentos de alto risco e longo prazo.
Nesse cenário, dados, infraestrutura computacional e capacidade analítica tornam-se ativos estratégicos comparáveis à energia ou à infraestrutura física em ciclos anteriores da economia.
Fortalecer o ecossistema de inovação sem expor ativos próprios
É plenamente possível estimular o mercado e a inovação aberta sem abrir mão de ativos estratégicos. O caminho está em modelos modernos de contratação, governança clara e desenho inteligente de parcerias.
Mas isso exige mais do que iniciativas isoladas. A inovação ganha escala quando governo, universidades, empresas, sociedade civil e centros de pesquisa conseguem atuar de forma coordenada, compartilhando objetivos, capacidades e responsabilidades dentro de um ecossistema estruturado.
Esse é um dos principais desafios brasileiros hoje: conectar as diferentes hélices de inovação para que elas deixem de operar de maneira fragmentada e passem a construir soluções de forma colaborativa e sustentável. Isso inclui, por exemplo, governança pública interinstitucional, ambientes de dados abertos, desenvolvimento conjunto de soluções, interoperabilidade entre sistemas e regras claras sobre propriedade intelectual, confidencialidade e uso de dados.
Nesse modelo, ecossistemas, startups, empresas e centros de pesquisa contribuem com criatividade, velocidade e especialização técnica, enquanto a instituição preserva aquilo que é essencial: seu conhecimento interno, seus dados sensíveis e sua capacidade de coordenação. O resultado é um ecossistema mais integrado, dinâmico, competitivo e sustentável, capaz de transformar colaboração em inovação de longo prazo.
Delegar no presente é abrir mão do futuro
Quando o poder público deixa de investir em inovação própria, em inteligência institucional e em estruturas de dados bem organizadas, cria-se uma dependência crescente de soluções terceirizadas que muitas vezes resolvem o problema imediato, mas não constroem capacidade interna duradoura.
Delegar tudo no presente pode parecer eficiente no curto prazo. Mas, no longo prazo, significa abrir mão de autonomia, reduzir capacidade de adaptação e perder oportunidades estratégicas.
É justamente nesse ponto que a Linked Data ganha relevância. Ao atuar em frentes como governança de dados, transformação digital, inteligência institucional combinando tecnologia e governança e construção de ecossistemas colaborativos, contribui para que organizações públicas avancem em inovação sem perder soberania.
Mais do que entregar soluções, o desafio é fortalecer capacidades permanentes dentro das instituições. O futuro não pertence apenas a quem compra tecnologia. Pertence a quem desenvolve inteligência para utilizá-la com autonomia.
Conte com a Linked Data.
Referências
MAZZUCATO, Mariana. O Estado empreendedor: desmascarando o mito do setor público vs. setor privado. Tradução de Elvira Serapicos. 1. ed. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2014.
ARAÚJO, Caroline Giusti; OLIVEIRA, Fernando Henrique Franzi. Embraer: um caso de imitação à inovação. Economia e Desenvolvimento, Santa Maria, v. 32, e6, 2020. DOI: 10.5902/2236499436123.